o taio do mirtão



Quantas vezes, estressados,
incomodados com as dificuldades comuns,
não temos vontade de abandonar tudo 
e sumir, sem ter que dar satisfações
a ninguém?
Nossa permanência no meio social
é compulsória e nos obriga
a práticas indesejadas,
ninguém consegue viver livre
da obrigação de cooperar,
de pagar impostos,
de não incomodar
a 'ordem natural das coisas'.
Porém, seria isso possível
no mundo de hoje?

Foi o que Misé tentou,
encontrar alento para suas dúvidas, pagando o preço para tanto,
arcando com todas
as consequentes perdas.

Há como viver
sem dar importância às convenções? 
O mundo vem se libertando
de amarras preconceituosas ancestrais,
mas os que divergem
da maioria ainda sofrem contrariedades.

Ao fim,
Misé tinha entendido que, talvez,
o segredo esteja na dosagem
das ambições.
Não se pode querer
tudo ou muita coisa,
mas parece ser um caminho
mais difícil abrir mão de tudo,
não lutar para sustentar
o que se tem.

Até que ponto controlamos
nossa trajetória,
influenciamos nossos destinos?
Embrenhe-se no mato e em si,
encontre seus caminhos,
a convite do 'mirtão'.
É uma jornada útil
para o pensamento
e o sossego do psiquismo.

(texto da 1ª orelha do livro)





o taio do mirtão (um ensaio pelo funil) é meu livro em fase de edição para lançamento, concluído em 08 de julho último. O primeiro esboço é de 2010. Foi reescrito a partir de 25 de abril deste ano. (o fim de um dos personagens foi modificado, para atender às reivindicações da Antonieta, uma das minhas leitoras mais fiéis e influentes).


(trecho)





a pedra da mina

12

Misé permaneceu ali na barraca canadense, perto da mina, mais uma semana. A água era boa, o frio, suportável, a comida, suficiente. Não tinha onde gastar seu dinheiro. Só não se livrara ainda de seus sonhos. Aninha, toda noite. Sabia que a amava, mas precisava arriscar tudo nesse período. Embora fosse muito forte o que sentia por ela, achava que, no fundo, mesmo que inconscientemente, era só comodidade. Uma mulher muito linda e meiga encantada por você, o que um homem pode querer mais? Mas sonhava com ela. O enredo do filme do inconsciente variava um pouco, só que em algum ponto, no meio de onde fosse, dobrada uma esquina repentina ou saindo de um túnel, ela surgia sexy, luxuosamente vestida, e eles imediatamente passavam a estar num lugar aconchegante, como uma suíte presidencial de motel. Acordava pela manhã, balançava a cabeça, lembrava-se com saudade dela e sorria doce para o céu, como se pedisse a Deus para abençoá-la, embora não acreditasse cem por cento em Deus. Voltava a sua ‘escrevinhação’, que vinha intensa desde o segundo dia perto da mina.

O homem é perfeitamente adaptável, a gente só vive como vive pelo costume. Se começássemos de um modo diferente, estaríamos diferentes, mas não outros. Criamos contextos e nos ocupamos em cumprir papéis convencionados. Podemos viver de outras maneiras.

A pessoa se sente forçada a se encaixar em um modelo qualquer. Para conseguir uma vida melhor, mais leve para todos, precisamos aprender a nos livrar da culpa do desperdício, do temor de gastar tempo à toa ou viver em vão.

Ninguém aparecia para incomodar. Ia grampeando e engrossando um maço com as folhas que conseguia passar a limpo. Às vezes, parava, se deitava na pedra, atrapalhando o caminho dos lagartos e calangos, e ficava olhando a evolução dos voos circulares dos urubus, dos gaviões, das apavoradas maritacas ou dos taciturnos e frios tucanos. Os pernilongos atacavam com sede de sangue, à fresca da tarde, e ele atiçava o fogo e se sentava próximo. Na terceira semana, com seu inconsciente mais inundado pelo mato-nova-realidade-a-sua-volta, passou a interromper os sonhos no meio. Ia andando, os pés dentro do riacho, e, de repente, asfalto!? Carro bonito!? Não, não... E acordava. Lá se ia o encontro com Aninha. Até que não sonhou mais com ela, antes de um mês de mato. Um verdadeiro estoico, um monge cultivando o desapego, não fosse a gula. Tomava café e comia bananas, que achou por perto, e seus biscoitos Maizena, que mantinha lacrado, muito bem lacrado, com sucesso, contra a voracidade dos bilhões de formigas que, segundo ele, ‘sub-habitam, com certeza, toda essa extensão continental, daqui até os bons jardins do fim do mundo’. Escrever em excesso, sem parar, tem disso, o cara acaba ‘escrevendo’ bom-dia a macaco. De vez em quando, fazia um macarrão com Alhosal. Quando apertava a vontade, abria uma lata de sardinha e comia com cebola crua picada fininha e azeite (português). Fazia também arroz branco. Mas um torresminho, uma linguiça, um bife... Um feijão fresquinho. Uma batata frita, um franguinho grelhado tem lá o seu valor... E os mantimentos estavam acabando, precisava ir a uma venda. Ia ver gente. Iria pela manhã.

(...)










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