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mundos paralelos


Sempre me senti meio fora da realidade, do conjunto das normas morais e comportamentais mais 'aceitas'. Minha perplexidade analítica entende que a realidade é tudo o que existe, o que se acha certo e o que se acha errado, bom ou ruim. Por causa de opiniões racionais e lógicas, dizem, pejorativamente, no cartório onde trabalho, que vivo em mundo paralelo. Não discordo, só faço um adendo: TODOS vivem em mundos paralelos, o mundo real absoluto não existe. Convivemos na intersecção entre os mundos de cada um. Basta ver o que cada um pensa de coisas não racionais, como religião, paixão futebolística, filosofia de vida, nível de hipocrisia utilizado em relacionamentos oportunistas etc. Quando me juntei ao Kareca, ao Wilson e aos demais arcanjos, percebi que minha 'esquisitice' era corroborada. O que uniu os colaboradores e os leitores do jornal foi essa 'perplexidade deustavênica'.
Passei a ter orgulho da chacota. Meus dois livros publicados são perpassados por essa certeza de que a liberdade verdadeira, a pura obediência ao próprio livre arbítrio, é impossibilitada a cada um pelo condicionamento aplicado em nossas sociedades. Se 'recebo' a chacota é porque reparam que não sou tão condicionado, um indício feliz de caminho positivo. A cada ideia que corrobore as minhas, esse contentamento aumenta, como prevê 'um merismo', a filosofia detectada e fixada por Misé (Hermes José), o personagem ermitão ('mirtão') que foge do mundo condicionado para pensar na vida no meio do mato (no 'taio' da pedra).

UM MERISMO – UM MÉTODO FILOSÓFICO QUE VISA SER GENÉRICO, A FIM DE ESTABELECER UMA FILOSOFIA ANALÍTICA DO COMPORTAMENTO HUMANO O MAIS ISENTA POSSÍVEL DE VÍCIOS, EM CUJA PARTE ALGUMA SE ENCONTRE UM DOGMA LASTREADO EM UMA HIPÓTESE OU EM UMA CRENÇA CEGA, E QUE SEJA AFEITO A FUTURAS DESCOBERTAS E ENTENDIMENTOS QUE O COMPLEMENTEM.

O encontrado da vez é Eduardo Marinho, filho de militar de alta patente, que renunciou à cobertura familiar, aos dezenove anos, abandonou a faculdade que iniciava e saiu de casa. Virou um 'ermitão' de verdade, um morador de rua. Sofria também com essa perplexidade, sabia que não queria fazer parte desse 'mundo competitivo'.
'Não quero competir, toda competição gera vencedores e perdedores. Não posso concordar com esse sistema'.
Queria conhecer o mundo e entendeu, rapidamente, que os que têm mais são condicionados a se sentirem superiores e, os que têm menos, a se sentirem inferiores. Quis entender como funciona a imensa maioria de nossa sociedade.
'Antes, eles eram educados comigo, eu jogava futebol com eles, me tratavam com respeito, mas nunca com igualdade. Eu precisava me sentir igual para sentir o que eles sentem'.
É uma experiência de vida rica e encantadora, mas não fácil. Pediu muita comida até que resolveu 'trabalhar para escolher o que comer'. Hoje, o rapaz que abandonou a universidade é convidado por elas para ministrar palestras interessantíssimas e concorridas. No YouTube há vários vídeos dele e com ele, e textos e desenhos em seu blog Observar e Absorver - http://observareabsorver.blogspot.com.br/. Vale muito conferir. Abaixo, algumas de suas premissas, colhidas amiúde e com permissão do próprio autor, que é extremamente generoso.
Largar tudo causa muito sofrimento, não é o que sugiro. Mas, por que não aproveitar as conclusões dele, tão racionais, tão puras e tão certeiras? É importante perceber que somos os responsáveis pelo que vivemos, damos respaldo à corrupção, à desigualdade, à impunidade, à violência, todos nós, porque ajudamos, nos mais variados aspectos, a acirrar a competição, que sempre gerará perdedores. Todos somos tão egoístas que temos dificuldade em nos assumir como tais, e culpamos coisas externas pelos desajustes. É preciso que cada um assuma que sabe que não é santo. Nem livre.


IDEIAS DE EDUARDO MARINHO


'A miséria, a fome é necessária para a aceitação de péssimas condições de trabalho. Há ciência, tecnologia e dinheiro para acabar com a miséria no mundo, só falta vontade política'.
'Grandes empresas comandam países (os governos da América Latina são praticamente exemplos de um mesmo gênero)’.
'É apregoado: queira fazer parte da elite'.
'Os ricos carregam uma bagagem de superioridade, porque foram assim condicionados. Os pobres, uma bagagem de inferioridade'.
'A nata do ensino superior trabalha para o condicionamento'.
'Os ricos vivem prisioneiros em seus condomínios fechados, apavorados, com medo de ficarem pobres, perderem privilégios. E privilégios comem direitos'.
'A maioria nada tem e vive tranquila. Os pobres é que fazem tudo, executam todas as tarefas. Rico é muito inseguro, depende de pobre para tudo'.
'As pessoas tomam antidepressivos durante anos, mas não questionam suas vidas, seus valores, que consideram únicos'.
'Na sociedade de consumo, não tem para todo mundo'.
'O marxismo é ótimo, mas os marxistas são péssimos'.
'Há benefícios materiais que não valem o prejuízo moral'.
'Não posso aderir a valores ridículos que eu vejo à minha volta'.
'Não quero ter vergonha da minha vida, não quero que a minha vida seja usada para a manutenção desse estado da sociedade'.
'Precisamos só de cinco a's: ar, água, alimento, agasalho e abrigo'.




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