banalizações - dtv 43

banalizações



A gente convive com um amigo ou namorada porque gosta, com companheiros de trabalho, porque precisa. Afinidades e necessidades. A maioria das pessoas nos é supérflua, como os que engarrafam o trânsito. Nossas ideias têm pouco público. Já os detentores do poder político e econômico usam a comunicação de massa, controlam as grandes empresas do ramo e mantêm a superficialidade das informações, banalizando as maiores contrariedades e fazendo qualquer mal parecer natural. Capitalismo e corrupção.
Como em todo o mundo, por todos os tempos. Jesus foi uma das maiores vítimas. Lutou contra a exploração do trabalho e da fé de uns homens por outros, mas foi traído pela humanidade. A partir de informações deturpadas, omitidas ou manuseadas oportunisticamente, construíram uma religião para garantir interesses de um grupo dominante, queimando gente inocente em fogueiras e vendendo indulgências para perdoar pecados. Quem são os verdadeiros bruxos? Não à toa, a 'Terra Santa' é um dos lugares mais violentos e desumanos.
Porém, apesar das distorções, nada foi em vão, o amor seguiu com seus milagres. Na última grande enchente do córrego do Canteiro (talvez em 2009), Orlando, amigo aqui do bar do Zezinho Papagaio, dormia, ainda sob os efeitos do porre da noite anterior, quando começou a perceber vozes distantes, que foram crescendo, até que acordou e entendeu que eram o Fabiano e outro rapaz que o chamavam lá do outro lado da linha. Esticou os braços para se levantar e sentiu que a água tinha invadido, estava no mesmo nível da cama. Abriu a porta e uma onda da rua se despejou no quarto, mas ele venceu a correnteza e conseguiu atravessar. A Sulani, sem ajuda de merda de governo nenhum, mexeu um angu, fritou uns torresmos e ofereceu com um litro de Paduana aos desabrigados, que passaram tranquilamente o dia, enquanto a água baixava, sem desespero. É ou não é a verdadeira solidariedade cristã? Isso não vai para o face, mas nos estimula a seguir com o DTV.
A evolução chegou às redes sociais. Milhões de pessoas, diariamente, expõem suas carências, complexos, preconceitos e outras bizarrices, ajudando a banalizar o que ainda não estiver corriqueiro e sem importância, e geram as mais burras dicotomias. Na última década, Lula, Dilma e todo o PT, que representavam a última esperança contra a corrupção generalizada, se mostraram também corruptos. Sem lógica, nas últimas eleições, muitos eleitores, que não ganham um tostão público desviado nem curtem privilégios injustificados, passaram a ser ferrenhos defensores de Aécio, que nunca foi santo e sempre participou desses esquemas entre grandes empresas e políticos 'bem-sucedidos', quando a luta deveria se dar contra o sistema eleitoral, que obriga a escolha entre candidatos oferecidos pelos donos dos partidos, que lá se mantêm desde a Independência. Bizarrices, paranoias. O namorado acha que a namorada se fez de carente na publicação, para receber mensagens (privadas) de elogio. A namorada acha que todas as mulheres, inclusive a Paola Oliveira, vão reparar em como é lindo o pedaço das costas do namorado no post dele. Bizarrices modernas. E essa banalização também exige sua participação.
Há uma moda de promover reencontros de turmas de colégio, faculdade, times de futebol... Pessoas que não se veem há anos. Não sou contra re0encontros, mas só reencontramos o que havíamos encontrado. Que amor doido é esse trinta anos depois!? Alguém estava preso ou exilado? Vejo os companheiros de pelada aos domingos, porque temos essa atividade comum, futebol e cerveja. A distância é apenas uma desculpa, uma muleta. Um amigo valenciano, o Lasneaux, foi para Brasília nos anos oitenta, mas mantivemos contato, antes, por cartas simples, hoje, pelo face. Outros permaneceram por perto, mas não nos falamos mais. Não que exista uma resistência, apenas falta uma maior afinidade, atividades comuns. Acho estranho essa forçação de barra. Gosto de boas lembranças, fotos antigas, mas minha vida continua, é gostosa em qualquer época e não chegou ao fim. Enquanto há vida, não há só saudade. Mas, tudo bem...
As redes expuseram mais nossa 'solidão coletiva'. Não há profundidade, textos extensos não são lidos, o que vale é a rapidez e a frequência. Novos posts levam o seu ao fim da fila, ao limbo, para ser esquecido após algumas curtidas. Uns chegam a postar, bem cedinho, algo como 'Apesar de saber que ninguém vai me dar bom-dia, eu desejo assim mesmo, tá? BOOOOM DIAAAAA!'. Isso não é um urro ululante de carência? E antipático. Outros deixam você na berlinda: 'Se você concorda com isso, curta, se não, compartilhe', como se houvesse apenas essas duas opções e você fosse obrigado a opinar.
No mundo todo, a comunicação de massa condiciona cada tipo de mercado-alvo. Os grandes empresários (e, no caso do Brasil, também os maiores bandidos, os que operam com vultosas verbas públicas) controlam o teor e o fluxo das informações. Aqui, banalizam os maiores crimes. Somos iludidos para acreditar que um aviãozinho do tráfico prejudica mais a sociedade do que um José Dirceu, um Eduardo Cunha, um Juiz Lalau. O sistema eleitoral obriga você a eleger participantes de grupos que desviam verbas públicas, sabendo que os caras não valem nada. E o condicionamento midiático vai vencendo: o povo mostra, nos posts, que concorda, que gosta de dinheiro de qualquer procedência, legitimando toda a corrupção e sofrendo suas consequências negativas, como a reforma da previdência (que ainda vai elevar a idade mínima a 100 anos), a falta de hospitais ou de médicos e medicamentos nos que funcionam, cidades largadas às traças, escassez de recursos para a educação...

Tudo é absurdamente nítido. Reparem novamente na canção 'Podres poderes' do Caetano, de 1984. 'Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América Católica, que sempre precisará de ridículos tiranos?'. A antecipação de consequências não é exclusividade do DTV, muita gente já viu e disse. Todavia, parece que quem gosta de gente são os vermes, os vírus, as bactérias. Rico e pobre gostam é de dinheiro.    

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