personal godding

um azedume no ário


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cheiro, suor e gosto

o seu zezito tem setenta e três anos

josé izito, meu amigo
do bar do zezinho papagaio
um homem que gosta da vida

outro dia, me revelou, emocionado

dizendo que eu sou um cara maneiro
que está satisfeito
porque ganha mais que um salário
mas diz em casa que é um só
e, apesar de aposentado
ainda trabalha de serviços gerais
enxada e tudo mais
ali no motel, ganhando mais um pouquinho
para tomar uma toda noite

como come bem e se exercita
tem uma saúde de ferro
e dança animadamente quando toco meu violão

não reclama de nada

‘eu sou um nego preto, rapaz
tenho leitura não’...
mas é rico em paixão pela existência

então vou tentar manter a saúde boa

até os sessenta
curtindo uma trindade aqui, um funil ali
jogando a minha bolinha
e tocando meu violãozinho
sem estresse
- esse é o meu plano de saúde
o de doença, no momento, é amil

perde-se muito tempo e dinheiro

dando satisfação à ambição alheia
que quer que todos estejam insatisfeitos
procurando algo mais

conheço gente feliz com salário mínimo
e gente mínima com um salário mais feliz
gente mais rica, mas escrava do trabalho, do dinheiro
e, principalmente, da hipocrisia

sou um aposentado (da ambição)

que trabalha no cartório
para manter a forma
para poder permanecer participando
com dignidade desse mundo paralelo
onde todos acham que os outros todos
devem tomar suas posições

também lá não tem enxada, não.



(obs.: hoje, o seu zezito já se aproxima dos setenta e seis, firme)


por que 'poesia tem nada haver'?



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