1 um carro novo e uma cruz (acc)























AQUELA CRUZ NA CURVA


















aquela cruz na curva

um carro novo
e uma cruz                                                                            260717


       Saíram bem cedo, junto com o sol, e pegaram a estrada que leva a Rio Preto. Pai, mãe e filho orgulhosos com a conquista. Era a primeira viagem com o carro novo, ainda com os plásticos protetores nos bancos. E não se tratava de qualquer carro – o anterior, quatro anos mais velho, era um modelo sedã pouca coisa mais caro que um popular. Agora, não, o carro era de um preço elevado, um dos mais potentes daquela montadora. Era a concretização de um sonho antigo, de criança, e um indicativo de que a família rumava para o sucesso.
       Sacrifício havia sido a palavra de ordem nos últimos doze meses, nada cai do céu. No início do ano anterior, ele estudara uma compra financiada, que acabou não se concretizando. O filho iria começar sua carreira educacional, e a mãe não admitia que seu um menino tão querido e perfeito frequentasse uma escola pública, ideia corroborada e incentivada por um irmão dela, José Adão, professor da rede de ensino estadual, que periodicamente lhe expunha detalhes do processo que ele chamava de ‘deterioração do serviço público’, A corrupção endêmica nacional chegava a seu clímax, instalando o caos. Para salvar os ‘seus’passavam a ser necessários vultosos gastos com educação, saúde e segurança privada. O país falira. Seguindo esse raciocínio, acharam por bem matricular o mais novo membro da estirpe na escola mais elitizada do Cerro, cuja mensalidade custava os dois olhos da cara mais uma beirada. No futuro, certamente, se orgulhariam também dessa escolha. Porém, Edmundo não desistiu e, paralelamente, seguiu à risca um plano de capitalização que acabou culminando na grande aquisição. Um ano inteiro com cerveja mais barata (sem que nenhum vizinho percebesse), frango e filé de merluza, arroz de cesta básica, miojo vagabundo, margarina, sabão em pó fuleiro... Uma lista extensa. Também não conseguiu permanecer em dia com a escola e, no momento da compra do veículo, devia duas mensalidades. Marcara um encontro com o setor financeiro para os próximos dias e tinha certeza de que entabularia um acordo e pagaria a dívida em parcelas. Achava mesmo que a escola estaria orgulhosa de ter seu filho lá. O casal sumira também do ‘clube de bacana’da cidade, onde costumava ostentar, ela (Grace Kelly, porque a mãe queria que fosse princesa),  jamais repetindo um biquíni ou uma saída, e ele, tomando doses do melhor uísque, enquanto se vangloriava de seus projetos (alguns até de autoria alheia), por exemplo.
Mas valera à pena: seus olhos ainda brilhavam, ao volante, como os de uma criança que acorda na madrugada do dia 25 e, depois de correr à árvore de Natal, encontra seus presentes pedidos e esperados com sofreguidão, apesar de já estar na posse do automóvel há duas semanas. Os companheiros do escritório de arquitetura caçoavam dele pelas costas, estava um chato com aquela conversa de um só tema. Diziam, inclusive, que seu enjoamento já ultrapassava o de outra funcionária, evitada por todos em razão de sua ultra-hipocondria, mas talvez exagerassem nesse ponto – a referida funcionária, repetidas vezes, ‘conseguira’causar dores de cabeça, náuseas, pontadas e repuxos reais em seus interlocutores. Alguns adoeceram de verdade.
Para ele, o que importava era que vencera, conquistara mais um objetivo. Para a mulher, também. Ficara um ano sem seu salão e sem boutiques, comprando roupas em lojas de departamentos e mantendo os cabelos presos. Contentou-se com os cosméticos que já possuía, maçãs nacionais, fins de semana na casa dos pais. Sapatos, então, comprou apenas umas três sandálias, que não tinham gabarito para ser guardadas ao lado de centenas de calçados requintados e exclusivos em seu closet – era uma colecionadora, desde mocinha.
       Os pensamentos vinham em turbilhão, uma retrospectiva de momentos selecionados, constatações de suas alegrias ou receios, incertezas. Apesar de rigorosamente pão-duro, começava a admitir que, dessa vez, faria um seguro. Com os carros anteriores, não ia a lugares onde tivesse que deixar na rua, e perdia, assim, grandes ocasiões e encontros, por não querer gastar dinheiro ‘à toa’. Porém, esse carro merecia a admiração ‘desse povo cerro-coroado invejoso’. Não prestava atenção ao que tagarelava a mulher ali ao lado, pensava e via o mundo como se lançasse o olhar do topo de uma alta montanha. Depois, contemplou, pelo retrovisor, o filho no banco de trás, absorto em seu joguinho eletrônico, e pensou: ‘e eu ficava todo bobo no Opala do pai’... No primeiro grande retão, meteu cento e sessenta, sem que o carro sofresse com turbulências. A mulher nem reparou. ‘Que máquina!’.
       Iam para o sul de Minas. Greicinha, que se dizia católica, queria conhecer as igrejas de São João del Rei e Tiradentes. Com criança pequena não dava para querer muita estripulia, e daria para usar um xale chileno que ela comprara em uma viagem e ainda não estreara. Edmundinho queria andar no trenzinho que liga as duas cidades históricas, comer hambúrguer e tomar sorvete. Edmundo queria sentir a potência e a tecnologia do carrão novo, contabilizando a chinfra que estava tirando.
       Em uma curva havia uma dessas cruzes de beira de estrada. Grace fez o sinal da cruz automaticamente, ele continuou segurando o volante, pois ia muito rápido. O moleque também avistou a cruz e quis saber por que ela estava lá.
       - Algumas famílias, que perdem algum parente querido na estrada, gostam de colocar uma cruz para marcar o local do acidente, para acenderem velas e rezarem, para que Papai do Céu cuide bem da alma da pessoa que morreu – caprichou o pai.
- Mas o morto fica ali embaixo, pai?
- Não, filho, o corpo vai para o cemitério, lá para o túmulo ou mausoléu da família.
- O cachorro fez xixi na cruz.
Eles conseguiram ver ainda por um lapso um cachorro peludo meio vermelho, meio cor de terra, desses que vivem nas ruas, farejando em círculo, antes que outra curva o fizesse desaparecer.
- O que é mausoleuda, pai?
- Mau-so-léu, filho – se intrometeu a mãe – é uma casinha parecida com uma igrejinha.
- Para o menino morar lá?
- É, quase isso, filho. A alma dele, se ele era bonzinho, foi para o Céu. Mas você viu o cachorro, né!? Que porquinho... Foi por isso que mamãe não deixou você levar um lá para casa, meu lindo – na verdade, ela tinha mania de limpeza e não queria limpar cocô.
- Aquela ali é de um rapaz lá do Cerro... – retomou Edmundo, que ia contar a história toda, pois conhecera efetivamente o morto daquela cruz, mas preferiu não dar mais detalhes. O menino poderia ficar impressionado com a história.
 - Você conhecia?
- De vista – mentiu e trocou de assunto – mas, me diz uma coisa, bateu ou não bateu o recorde aí?
E o menino passou a falar resfolegando sobre suas conquistas no game. Edmundo se distraiu no console, com o som, com o GPS, com o computador de bordo. Grace pensava que talvez tivesse sido melhor trazer a calça de veludo cotelê verde musgo, ia combinar mais com o xale.
Em seu íntimo, Edmundo receava que seu filho acabasse interrogando o tio, seu irmão mais novo, Rivaldo, que era amigo inseparável do dono daquela cruz, sobre o ocorrido. Seu irmão, inclusive, fora também vítima no acidente que furtou a vida daquele jovem. Um acontecimento que comoveu toda a cidade. Por isso interrompera a conversa. Tinha noção de quanto Edmundinho era impressionável e preferiu não arriscar noites difíceis. Algumas curvas à frente, já havia se distraído com uma música.    O menino permanecia feliz com seu game. A mulher contabilizava esquecimentos, verificando na bolsa de mão as coisas (desnecessárias) que havia deixado em casa.
       Essas cruzes à beira das estradas são tradicionais, símbolos folclóricos nacionais. Os antigos entendem que a alma de quem morre ali, longe de casa, fica rondando o local, perdida, desviada do caminho da luz. Amigos e parentes fazem uma cruz branca (atualmente, já temos de variadas cores e materiais) e cravam no local exato, para não permitir que o diabo leve a alma do morto (atentem para o fato de que a crendice popular supersticiosa e não científica consagra a ideia de que uma alma, separada de um corpo, não vai a lugar algum por impulso próprio, mas precisa ser conduzida). Há todo um folclore, diversificado de acordo com as cores de cada região de nosso território continental, resquícios da superstição ancestral da espécie, que precisa de respostas para seus questionamentos existenciais, qualidade (e defeito) exclusivo, não constante nas faculdades dos demais seres vivos. Estão dentro dessas tradições os costumes de ‘desovar’, nos pés dessas cruzes, imagens quebradas de santos ou de fazer promessas para a alma do morto, deixando seus nomes escritos em fitas penduradas nos braços da cruz.
       Dizem que dessa tradição veio a expressão ‘foge de (algo) como o diabo foge da cruz’. Edmundo pensava nisso sem dar muita atenção, em segundo plano, em seu cérebro de engenheiro civil machista, elitista e preconceituoso tradicional, que professa que ‘arquiteto é quem não é macho para ser engenheiro, nem tem coragem para assumir que é decorador’, e que só reza quando vai à igreja, e mesmo assim para pedir, nunca para agradecer, benesses materiais, como a ‘conquista merecida do carro novo’. ‘Por que cismamos com a cruz?’, se perguntou calado à certa altura.
       A simbologia é a ciência que trata da interpretação dos símbolos, independentemente de sua origem ou de sua utilização para representar o mal ou o bem. Os símbolos, anteriores à escrita (os algarismos, ideogramas e letras nada mais são que símbolos), estão presentes em várias sabedorias e mitologias remotas, embora ‘a sabedoria antiga e a filosofia esotérica ainda durmam sob a superfície rotineira dos dogmas cristãos da Idade Média’, como constata Carlos Cardoso Aveline, em estudo que cita ensinamentos de H. P. Blavatsky e Eliphas Levi, grandes autores e filósofos do segmento. Em seu livro ‘Ísis Sem Véu’, Blavatsky mostra em detalhes o processo pelo qual o cristianismo de Roma se apropriou dos antigos conhecimentos das tradições ‘pagãs’ de sabedoria. Depois as perseguiu (inclusive a tradição judaica), destruindo suas obras escritas e matando seus mestres e alunos. Outra prática anterior aos romanos, a de eliminar pensamentos e atitudes diversos aos dominantes. Coisa de homem ignorante supersticioso, imediatista e materialista.
       E não só a cruz, mas o sinal da cruz, o movimento de condução da mão direita para encontros escalonados e ritmados com a testa, o coração e os ombros, na verdade, tem origem cabalística e possui um significado amplo, filosófico, livre de qualquer relação com crenças supersticiosas. Representa as oposições e o equilíbrio quaternário dos elementos.
Tanto para a filosofia antiga e teosófica como para o cristianismo autêntico, o corpo humano é o grande templo. Através do verdadeiro sinal de cruz, que nada tem a ver com superstições, o indivíduo se estabelece simbolicamente na consciência divina. Ele assume por mérito próprio ‘o poder que o faz parecer nada aos olhos dos outros, de estar em união fraterna com a Lei Universal e com todos os seres’.

‘Não sabeis que sois o templo de Deus
e que o Espírito de Deus habita em vós?’
(I Coríntios 3:16)

       Edmundo, como a esmagadora maioria dos ocidentais capitalistas, só conhecia a cruz cristã, que remete ao martírio de Jesus de Nazaré. Era para ele um símbolo de santidade e pronto, estava muito bom, ele não se devia maiores explicações - nada disso dava dinheiro. Jamais atentara para o fato de que a cruz fora uma arma letal romana, para executar prisioneiros condenados. Transpondo, se Jesus tivesse vivido e sido executado durante a Revolução Francesa, poderíamos viver beijando pequenas guilhotinas douradas, que carregaríamos como pingentes em nossos cordões, quando precisássemos da ‘presença’ divina em algum momento, como sugeria Kareca Giesta, artista cerro-coroado.
       A cruz não era nada disso. Simbolizava o equilíbrio entre os quatro elementos ou a própria vida, tratando-se do encontro perpendicular entre duas retas (ou sentidos), o vertical simbolizando o ímpeto masculino, a energia bruta em prol da conquista e do confronto, o movimento nômade, e o horizontal, representando a feminilidade e a maternidade, a manutenção da ‘casa’ e o cuidado com as crias, a territorialidade. Grupos esotéricos e alquímicos se distinguiam utilizando a cruz, como modo de sinalizar a seus pares sua iniciação aos conhecimentos superiores à perquirição humana média. A cruz sempre esteve tão presente que é difícil cravar sua origem. O que se pode dizer é que passou a ser utilizada como arma de execução em algum ponto da Antiguidade, anterior à sua adoção pelos romanos.
       Entretanto, o carro novo, muito bonito, muito potente e muito real, tinha passatempos suficientes para trazê-lo de volta ao mundo convencional, e à fruição de seu orgulho de vencedor. ‘Agora eu estou montado’...








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