4 papo de maluco (acc)

aquela cruz na curva





PAPO DE MALUCO


Durante a semana, costumavam terminar as noites em uma praça, cantando e batendo os violões até a madrugada, ouvindo as histórias sinistras de Thales. Um vinhozinho ou uma vodca barata não podiam faltar. Entretanto, evitavam a presença do Tio. Ali, queimaria o filme, a polícia certamente chegaria para dar uma dura. O Tio estaria com um ‘flagrante em cima’, ao menos uma ‘beata’, seriam levados para a delegacia, o que seria uma catástrofe para os orgulhosos alunos do Blaise. Embora Tio Ney fosse incentivador, tecendo sempre comentários positivos sobre a iniciativa. ‘Cara, esse Adãozinho tem pegada, é muito rock’n’roll, moleque! Canta Tempo Perdido melhor que o Renato Russo, tem mais gogó`. Ou ‘Não, o camarada é meu sangue, morô, mas o cara sabe bater uma letra, dar uma ideia, tipo o Bob Dylan, só que mais grimpado. Saca Pink Floyd, Roger Waters, Mother? É desse naipe’. Ou ainda ‘Esse Thalinho é meio viadinho, mas entende, ele parece aqueles críticos mais chatos, que sabem tudo, da Rolling Stone, dessa Bizz... Sabe os nomes da porra toda, maior intelectual, aí...’. Não compreendia, todavia, por que Plínio era o baixista: ‘Cara mais estranhão, desligadão, toda hora para porque o cara viaja e não conta o tempo... Acorda, brother!’ Mas Plínio era Sloaf, tinha toda a legitimidade para ser distraído.
Foi no jipe, apelidado de Chico Blue, que os rapazes conheceram as cidades de doidão, levados por Tio Ney, que, na verdade, era serigrafista e comprava seu bagulho com o dinheiro que ganhava estampando, tinha bastante trabalho com as faculdades da região. Contudo, não era bom desenhista, só reproduzia trabalhos de outros, a maioria de autoria de seu amigo Kareca Giesta, o maior artista plástico local, que não assinava suas esculturas, instalações, cenários, pinturas ou desenhos. A primeira dessas inesquecíveis viagens foi a Mauá (Maringá e Maromba). Ney Work tinha cinquenta gramas de um fumo novo verdinho, ‘o cariá’, foi fumando da saída do Cerro até lá, um atrás do outro. Adão, no banco do carona, ia ajudando a despelotar. No som, rolavam fitas k-7, Raul, Led, Iron Maiden, Pink Floyd. Rivaldo, Thales e o sobrinho se apertavam sobre a capota de napa nos bancos traseiros, um desconforto só. Não obstante, todos riam e se divertiam. Dona Sônia ficara sabendo que era para Juiz e Fora, cidade que eles conheciam e de que ela gostava, e que iriam de ônibus, mas o Tio escondeu as barracas e pegou os meninos na rodoviária. Era julho, fazia frio. Ney Work, para não perder o costume, comandante da expedição, falava como uma metralhadora. ‘Aquela água é fria demais, corre abaixo de zero, vem lá das Agulhas... Mas você toma um melzinho e se esquenta, sacô? Tive com o Raul aí pra cima, brother, maior viagem, maluco’.
Não era à toa que Ney Work comentava sobre Raul. O pai do rock nacional morrera recentemente, o que causara um alvoroço, um clamor. De um dia para o outro, as rádios voltaram a tocar seus sucessos, os canais de televisão exibiram homenagens, reportagens e shows, outros artistas regravaram suas composições. Estava em voga. Depois que saíram da Dutra em direção à serra, passaram a avistar, em qualquer boteco ou venda no caminho, os malucos chegando. Os cabeludos e barbudos estavam mais garbosos, importantes, como se fossem membros legítimos da casta do roqueiro baiano, que não foi ao primeiro Rock in Rio porque não tinha mais as mínimas condições para ficar de pé por duas horas em um palco, e não conseguiria ensaiar as harmonias ou se lembrar das letras, segundo constatou a equipe destacada para lhe fazer o convite, no sítio onde vivia. Perdeu para o álcool, essa poderosa droga líquida, licita e bem tributada.
O Tio fez apenas uma parada, já na estrada de chão, após ter passado pela entrada de Penedo, que, naquele tempo, já não era programa para ‘maluco durango kid’. Mauá começava também a virar nicho de riquinhos alternativos ou esotéricos de vida ganha. Os hippies e a galera sem posses preferiam Maromba, mais lá no alto, acima de Maringá. Estacionou o jipe à porta de uma dessas vendas que têm de tudo, roupas, alimentos, material de construção, ferramentas, remédios, bicicletas... As mercadorias lotam as prateleiras, caem do teto. A mulher do dono fazia uns pasteizinhos de carne sensacionais e muito baratos. Ney Work, ao saber do preço unitário, olhou para os rapazes, que andavam pelo interior do estabelecimento se divertindo com a variedade dos itens expostos, e, depois de apertar o queixo com a mão, calculando, pediu: ‘Faz duas dúzias, por favor, tia. E abre uma cerveja pra galera’. E não exagerara. Os rapazes devoraram em poucos minutos a bandeja inteira, enquanto tomaram duas garrafas. O Tio, então, pediu a terceira, mais uma dúzia de pasteis e perguntou se ela não tinha uma da roça. O marido, quieto a palitar os dentes por baixo do bigodão, interveio: ‘Da branca ou envelhecida?’. Os rapazes passavam pela mesa, abocanhavam um pastel, davam mais um bico na gelada e voltavam às prateleiras, seguindo na brincadeira. ‘Aqui, cara, tem esses rolos de fazer massa de pastel’, ‘Pinguim de geladeira, aí’, ‘Pasta Jóia’... Rivaldo, de repente, desafiou: ‘Será que tem penico?’. Os outros, rindo, se meteram a procurar. Como demoravam, o dono alisou o bigode, com o dedão e o mindinho, e deu opções? ‘De plástico, de alumínio ou esmaltado?’. Acabaram levando um par de botinas para cada, por insistência de Ney Work, que havia recebido por um grande trabalho com as turmas da faculdade de medicina e não estava poupando, como era de costume, aliás. ‘Há tempos de lorde e tempos de plebeu, maluco tem que saber curtir e saber correr atrás’. Botinas sem graça, de couro claro com elásticos nos tornozelos, as usadas por ali.
A parada seguinte, dois baseados depois, Bob Marley comendo no som, foi em Mauá. A pequena vila estava agitada, muita gente chegando na caída da noite. ‘A malucada tá na área, brother...’, o Tio esfregava as mãos. Tomaram mais três cervejas no bar mais cheio, com o jipe mal parado, fazendo com que os outros carros passassem espremidos, cuidando para não arranhar as latarias. O Tio falava alto, cumprimentava todo mundo como se fossem saudosos companheiros de antigas aventuras, e os rapazes registravam tudo com os olhos bem abertos e os lábios querendo ceder. Era uma pesquisa de campo, embora não tivessem noção exata disso. O Tio insistiu para que pegassem um violão no jipe (tinham levado dois, o de Adão, um Tonante cascudinho, e o de Rivaldo, que era bem mais caro, um Yamaha. O pai de Rivaldo, Dr. Costa, era da Receita Federal, era o que percebia a maior remuneração dentre os ascendentes dos rapazes). Contudo, estavam ainda tímidos e meio envergonhados, preferiram contrariar Tio Ney. Disseram que ficaria tarde para encontrar acampamento. O Tio ria despreocupadamente, com o semblante tranquilo de quem mora no mundo, mas cedeu e pagou a conta. O jipe pegou estrada para Maringá e o pequeno congestionamento da vila se dissolveu.
Nos barzinhos de Maringá, que também estava apinhada, só dava Raul, mas os rapazes não permitiram e Ney Work não parou, foi só saudando efusivamente todos os grupos de malucos pelos quais passavam. ‘Massa, maluco!’ Era bem noite quando pararam ao lado do cruzeiro, em frente à igreja de São Miguel Arcanjo, na Praça da Maromba. O frio aumentava, todos pegaram casacos nas mochilas. No bar principal havia um grande cartaz, ‘Capelinha’. Tinha da pura ou com mel. A coxinha e o bolinho de aipim mais gostosos do mundo. Ney Work alugou uma mesa, ao lado de uma outra onde dois caras tocavam violão, um grupo de seis ou sete pessoas. De cada três canções, duas eram do ‘maluco beleza’. Dessa vez, com uns melzinhos no lombo, pegaram os violões. Só para afiná-los, levaram mais de vinte minutos. E não ficou bom. Na primeira pausa que os camaradas fizeram, entraram com Legião, a voz potente do Adãozinho: ‘Parece cocaína...’. Os outros malucos aluíram, e seguiu a violada. À meia-noite, serenava, o frio estava denso, mas Ney Work acabara de virar mais uma. ‘Nem os santos têm ao certo a medida da maldade, morô, brother, meu camarada’, e voltava a rir, quase babando, cuspindo enquanto tentava gritar. ‘Rock’n’roll, porra!’ Álcool é álcool, para roqueiros, pagodeiros ou músicos clássicos.
Já na madrugada, o bar querendo fechar, após muita insistência, Ney Work cedeu e pediu que passassem a régua. O jipe, antes misturado aos demais carros, brilhava molhado e solitário, ao lado do cruzeiro, sem companhia. Tinha a lataria e a capota tomados de adesivos, a maioria estampada pelo próprio. Símbolos de anarquismo, do movimento hippie, a boca do Rolling Stones, o homem alado (Ícaro?) da Swan Song, a Pantera Cor de Rosa, o Rabugento, uma silhueta do Bob Marley com um bagulho na boca, o brasão da Route 66, um rótulo de Jack Daniels. a foice e o martelo soviéticos e até uma estrela de Davi. Não era religioso e, questionado sobre o símbolo, certa vez, se defendeu dizendo: ‘Porra, meu camarada, esse símbolo é o maior sagrado, saca? É um triângulo para cima e outro para baixo, morô, acoplados. É o homem e a mulher e o amor e a fertilidade, a porra toda. O homem é um cara divino, cara. E, perante o digníssimo lá em cima, todos somos irmãos, brother.’.
Não dá para não dizer que fazia ainda mais frio, e uma neblina desceu sobre a serra. Não se enxergava a mais de cinco metros. Eles guardaram as violas e apearam no jipe, tinham que encontrar um lugar para dormir. Thales bocejava e reclamava de tudo, fumando um maço de cigarro de parada em parada, uma chaminezinha mal humorada.
Ney Work pediu que não se preocupassem, que Maromba era a casa dele. Facilmente encontrariam lugar para ficar. Porém, ao chamar aos berros da entrada (fechada com um bambu atravessado) do primeiro camping que achou, recebeu só outro grito de volta, informando que não havia vagas. Trezentos ou quatrocentos metros acima, não encontrou quem lhe atendesse. O terceiro estava botando barracas pelo ladrão. Os meninos reclamavam do frio, que congelava os ossos. No escuro, ouvindo o barulho da torrente e do balanço das araucárias, sentiam-se em um filme épico, talvez nos Alpes ou nos Andes. Na quarta parada, o Tio pediu que descessem e trouxessem os cobertores. Como ninguém aparecera para lhe barrar, nem para dizer nada, forrou uma lona embaixo de uma araucária velha, repleta de parasitas trepadeiras, e juntou os colchões todos por cima. Todos se deitaram bem próximos e se cobriram com outra lona plástica, porque serenava. Tentaram dormir ali o resto da madrugada, passando de mão em mão a garrafa de Capelinha, em uma vã tentativa de esquecer o frio. Só Thales não quis beber e, talvez por isso, foi o único que não conseguiu um cochilo sequer antes que as primeiras luzes lhes pusessem em atividade novamente. Pela manhã, estava insuportavelmente enjoado, um `entojo`.
Sem que responsável ou dono algum aparecesse para averiguar, Ney Work improvisou um fogãozinho com pedras, meteu fogo em uns gravetos e pediu ao sobrinho que enchesse um canecão no rio. Ele desceu até a margem e, escorregando, molhou os dois pés, até as canelas. Seus tênis Redley de lona não secariam até o fim da viagem. Além daquele par, só levara uma botina de metalúrgico da CSN, de cano curto. Tinham dito que era ‘uma roça’. Não aceitou, orgulhoso, um chinelo oferecido por Rivaldo. Depois do café, Tio Ney botou todos no jipe partiu, para encontrar cedo um ancoradouro. Poucas curvas serra acima, parou em frente a uma casinha bem simples, em cujo espaçoso quintal três barracas dormiam montadas. A dona permitiu que ficassem até domingo, uma pechincha. O problema é que o banheiro era apenas uma privada bamba e uma mangueira com um gotejamento de água gelada na vez de chuveiro. Tio Ney defendeu que isso sim era acampamento de maluco de verdade, e os rapazes, sem alternativas, não o contrariaram. Entretanto, ao estacionar o jipe, com um baseado aceso na boca, deixou que a roda traseira esquerda caísse em uma vala. Depois de algum esforço inútil, decidiu deixá-lo ali mesmo, pois não atrapalhava o fluxo da estrada, e desceu para o rio, para recarregar as baterias na água.
Fumou mais dois com os camaradas lá embaixo e voltou para fazer o almoço. Macarrão espaguete empapado com molho de salsichas e ervilhas. Nem cachorro comeu, ‘a fome é o maior tempero’. E o Tio ainda reservou um pratinho pequeno para o filho da dona da casa, que ‘ficou de olho comprido, tadinho’. Acompanharam com um Ki-Suco de uva, preparado com a água da bica do banheiro. Na faixa dos dezesseis, dezessete, foi como um banquete de iguarias preciosas.
Depois de uns arrotos e do ‘back digestivo’ de Ney Work, partiram em caminhada rumo ao Escorrega, o sobrinho com camisa de malha, bermuda curta e coturno. Não demorou para que outro grupo de turistas mexesse ‘Olha o Araquém!’. Seus próprios amigos adoraram e aderiram. Durante toda a tarde ele foi tratado pelo nome do mascote da seleção brasileira em copas (que dava azar), famoso pela cafonice de suas vestimentas. Nessa marcha, passaram pelo Poção, com o acordo de só parar ali na volta, para não desanimar a subida. Completamente suados e ofegantes, chegaram ao Escorrega, que era natureza pura, sem lojas ou bares próximos. Só uns hippies vendiam seus trampos ali à tarde. Vendo que outros já escorregavam no tobogã natural de pedra, encorajados pelo Tio, entraram na água. Ney Work alertou sobre todas as malandragens necessárias para uma descida segura e todos se deram bem. Deslizaram umas três vezes cada. Menos Thales, que ficou fumando na sombra, colocando a ponta do dedão na água esporadicamente. Nosso Araquém, que usava a bermuda com tecido menos resistente, ficou com as popinhas visíveis através da franja que se formou embaixo do bolso traseiro. Contudo, foi uma curtição. Alguns, mais experientes, desciam de pé, como se usassem pranchas, desafiando o perigo... e ninguém se machucou. Muitas gargalhadas e dois baseados depois, se puseram de volta.
O caminho até o Poção foi mais ligeiro, ‘para baixo, todo santo ajuda’. Tio reservara esse momento. O interessante ali era saltar de uma altura de oito metros, em um poço de profundidade superior a essa altura. Thales, mais uma vez, se recusou e acendeu mais um cigarro, exausto da caminhada. Rivaldo, em um rompante, pulou primeiro, enquanto todos pensavam se encarariam ou não. Caiu bem, como um prego, de pé com as mãos coladas às coxas, na posição de sentindo. Foi saudado ao sair pelas pedras lá embaixo. O Araquém arrancou as botinas e o seguiu, chegando bem à água, em um salto parecido com o de Rivaldo. Saiu ofegante, pois achou que afundara demais na descida. Adãozinho, não, ele pulou gritando `Cerro...`, batendo asas e se chocou com a superfície da água em posição de cruz, avermelhando os sovacos e a parte interna dos braços. Felizmente, nada grave. Tio Ney fechou o espetáculo. Simplesmente anunciou que `assim é que é` e, apesar de seu porte não muito atlético, saltou segurando os joelhos, realizou um 360 frontal e caiu na água de ponta, praticamente o Greg Louganis. Ao jorrar de volta à tona d’água, comemorou com se estivesse com o ouro garantido, e foi aplaudido por todos os malucos presentes. Quase não parou de falar, empolgadíssimo, durante os dois baseados que fumou com uns caras que assistiram ao salto, que se tornaram seus fãs. Por fim, tomaram de novo o rumo do acampamento, para alivio de Thales, que não aguentava mais os mosquitos.
  Chegaram ao fim de tarde, na hora do banho. Ney Work os levou a um trecho conhecido onde o rio é estreito e sem pedras. Entrou pelado, embora outras pessoas estivessem por perto, e começou a se ensaboar com um sabão de coco, cobrindo todo o corpo, inclusive os cabelos e a barba, antes de afundar para o enxágue. O problema é que a água só não estava congelada para não interromper o curso do rio, mas estava perto de zero grau. Adãozinho teve uma ideia, a qual os demais aderiram. Enfiou o sabonete na sunga e, em um mergulho rasante, passou rápido ``a outra margem, Ensaboou-se, guardou o sabonete, mergulhou de volta e deu por encerrada a missão. Thales agachou-se e lavou as orelhas, o rosto e as axilas.
A noite caiu. Comeram pão de forma com sardinha de lata e cebola crua e desceram até o Centro, depois de convidarem todo o camping para ajudar a recolocar o jipe na estrada. Na Praça da Maromba, encontraram um grupo que se divertia em uma animada roda, quatro violeiros no meio e a galera bebendo e dançando em volta, moças bonitas... As violas passavam de mão em mão, as músicas emendavam umas nas outras, Raul direto, Rivaldo e o nosso Araquém, já mais composto, com calça jeans. Também tocaram na roda e se sentiram verdadeiros músicos. Uma fumaçada doida de maconha, uma alegria só. Só saíram dali porque tinha show em Mauá, de graça. Ney Work estava certo de que iria rever amigos lá, ‘galera das antigas’. De jipe, vinte minutos, chegaram ao campo, onde um palco estava montada em uma das traves, a mais próxima à igreja. Uma banda local tocava qualquer coisa e eles trataram de providenciar duas garrafas de Capelinha. Acomodaram-se, então, mais ou menos, no círculo central. Ney Work acendeu mais um e puxou papo com todos. Thales lançou uma cigarrilha na boca. Os outros três entornavam pinga para dentro.
No palco, chegou a vez de Victor Biglione. Sua guitarra chamou a atenção do público, que não estava muito ligado nas atrações anteriores. O álcool e o rock’n’roll botaram os rapazes para dançar. Rivaldo, mais desinibido, convidou um grupo de moças, que aderiu à dança. Capelinha daqui, movimento dali, antes mesmo que Claudio Nucci fosse anunciado, já rolava um clima. Tio Ney viu que o sobrinho `estava se dando bem` e, disfarçadamente, afastou o resto do grupo. Dias depois, no Cerro, ele contaria que nem se lembrava do que ela dizia, só que seus olhos brilhavam e lhe chamavam. Passaram aos beijos e, só quando Claudio Nucci convidou todos a se sentarem e curtirem a lua cheia que subia por trás do palco, é que os dois voltaram para o mundo. ‘Vem, morena, ouvir comigo essa cantiga...’,  todos cantaram em coro. Depois, Sapato velho. No bis, `Ah, eu quero, quero tanto, que você me aceite do jeito que eu sou...`. O clima romântico acabou de apaixoná-los. Quando perceberam, os outros tinham sumido. A galera se dispersava, o show terminara. Entretanto, a zoeira prosseguia. Violões apareceram. Ney Work, de repente, agarrado a outro cabeludo, passou por eles e combinou com o sobrinho que não o procuraria. O rapaz concordou.
O casal saiu da confusão e foi para o escuro da estrada que sobe para Maringá e Maromba. Duas curvas e estavam a sós. A moça lhe contou que terminara um relacionamento recentemente e que fazia cursinho, pois queria estudar medicina. Ele não tinha planos, mas disse que iria tentar engenharia mecânica. Quando tentou tornar as carícias mais intimas, ela se esquivou, relembrando-o do namoro recente. O frio acabou vencendo-os e, sem opções, puseram-se a caminho de seus acampamentos, ambos em Maromba, oito quilômetros serra acima. Ela garantiu que arranjariam carona, e deu certo. Uma Kombi, na qual não cabia mais ninguém, os levou até Maringá. O resto era com eles. Nesse último trecho, ele se espantou quando ela revelou que estava mal psicologicamente e se tratava com calmantes tarjas pretas. Aí é que ele percebeu que ela falava meio arrastado, o que lhe trouxe um desconforto. Na chegada ao camping dela, se despediram, marcando novo encontro para a próxima tarde, na Praça da Maromba. Assim que voltou só à caminhada, entretanto, achou que seria melhor não vê-la. O problema psicológico o deixara receoso e, à medida que se esquecia da moça, começava a esboçar uma canção, marcado no ritmo de seus passos. Um reggae. ‘Eu não vou tomar comprimido, pra viver deprimido e de tudo proibido, amigo...’. E foi assim até o camping, ele e a lua cheia. Abriu sua barraca, a maior, e dormiu entre Adãozinho e Tio Ney, que roncava. Thales e Rivaldo dormiam na barraca menor.
O sono foi bom, acordaram perto das dez da manhã. Comeram o resto de pão de forma com um café de fogueira e partiram para a Cachoeira da Santa Clara, um lugar realmente lindo. Lá, curtiram com os hippies e os violões até o meio da tarde, quando a fome apertou. O momento mais destacado, porem, foi a apresentação da nova canção pelo sobrinho, uma homenagem a Ney Work, ‘Papo de maluco’, um resumo da vida e dos valores dos frequentadores daquela serra. Ney Work ainda saciou a fome de todos, pagando um pê-efe para cada no único restaurante (pensão) que servia almoço na Praça. À noite, já tinham concluído essa primeira e inesquecível viagem, em todas as acepções.  O sobrinho não viu mais a moça.




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