16 o esquiza (acc)



 

O ESQUIZA*





* trecho do livro desconstrução primeva,
de Walter Soares  (2000).


 
  
A perplexidade de Zé Ateu o levou, durante essas dezenas de anos, por um caminho de ceticismo. Do que mais sentia falta, no bojo das explicações sobre nosso âmbito espiritual, é de uma regra possivelmente geral. Se você acredita em Adão e Eva, não pode crer nas teorias de Darwin ou de Einstein, e assim sucessivamente. Para seguir fielmente uma filosofia ou teologia, sempre lhe pareceu necessário fingir que outra parte, a adversa, não existia no mundo, que não contava na existência, embora constituísse uma realidade objetiva.
Encontrou uma possibilidade para um entendimento racional, ainda que meio distante (como o nosso sobre as teorias comprovadas de Einstein), do funcionamento do movimento dos espíritos pelo universo. Um sentido para tantos egocentrismos. Como essa espécie de energia/matéria espiritual se relaciona fisicamente com os demais componentes da poeira geral? Quais são suas equações? Se algo controla esse fluxo espiritual, o que é, como é e onde fica? Parecem perguntas tolas, mas achava mais tolo não fazê-las durante toda uma vida e permanecer fingindo para si que cria em algo, que não sabia dizer bem o quê. As filosofias que mais se aproximavam dessa generalização eram as orientais, como o taoismo, o hinduísmo ou o budismo, porque celebravam algo impessoal, mas onipresente, uma energia/harmonia inerente a todas as coisas, vivas ou não, muito mais afeitas às teorias físicas de funcionamento do universo.
Entendia que o homem prefere crer em um sistema (ainda que jamais demonstrado), e resolveu criar um hipotético, para ir aparando ao suceder das descobertas, tentando abarcar todos os fenômenos reais em sua estrutura, e vislumbrou o esquízon (col.: esquiza), partícula elementar de espírito, tal como é o fóton para a radiação eletromagnética. Imaginou partícula porque assim tudo está formado temporariamente, por partículas cósmicas mínimas, que são dualisticamente matéria e energia. Por que não aconteceria o mesmo com os espíritos? Foi a única maneira plausível de existência física dessa energia que encontrou, apta a ser trabalhada matematicamente.
O nome veio da palavra esquizofrenia, distúrbio mental caracterizado por comportamento social fora do normal e incapacidade de distinguir o que é real. A palavra foi cunhada em 1910 pelo psiquiatra suíço Bleuler, em alemão, como schizofrenie, uma composição de duas palavras gregas, skhizein (separar) e phren (mente). A moléstia é causada por fatores genéticos e ambientais, o que corrobora a teoria dele – esquízons natos e agregados.
Para evitar confusão e obscuridade, resolveu testar, verificar se as sugestões teóricas tinham possibilidades mínimas para serem gerais, tentando imaginar como os fenômenos reais (ou míticos) funcionariam sob a hipótese. Estudar como poderia sistematizar as suposições à luz da teoria do esquiza.



LINHAS EXPRESSAS, TORTAS OU NÃO


uma fota

A primeira questão é a mais delicada. A esquizonologia não descarta a existência de Deus. Ao consagrar os princípios da relatividade geral, da física quântica e do evolucionismo, a tese dele defende que as energias e matérias só se relacionam através de um meio físico. Em qualquer instância, micro ou macro, ‘corpos’ se encontram no espaço, fenômeno que chamou de princípio do touch. Nada acontece, nas relações universais, sem que uma coisa ‘encoste’ (na verdade, chegue muito perto) na outra, desde um tapa na cara até as transmissões de vários tipos de ondas via satélite. Mesmo o controle remoto emite uma onda que ‘bate’ no sensor do aparelho. Nada ocorre sem contato, como já sabia ‘Maria atrás da horta’. Portanto, para que qualquer prestação divina, seja benção, brisa de amor, castigo ou carma, possa ser efetivada, possa ser conduzida até os homens e seres alvos de seus envios, é necessário que isso se dê por um corpo energético através de um meio físico. Os esquízons se prestavam muito bem a esse papel de ‘elétrons especializados’, e Deus, então, poderia tranquilamente existir e controlar burocraticamente seus perdidinhos, através da rede esquizonal.



O TAO DO ESQUÍZON

yin e yang

A identidade com as filosofias do Oriente era escancarada. Essa força/energia sensível elementar que perpassa toda a existência, venerada de diferentes modos, que chamam de tao ou dharma, similar à que cultuam os escandinavos adoradores da natureza e da vida natural, sugere toda uma movimentação através das vias de fluxo dos esquízons. Através de qual meio poderia se consubstanciar essa ‘osmose harmonizadora’ por eles buscada?



COMO SERIA FORMADA UMA ALMA


uma alma

Um homem faz sexo com uma mulher – a ciência ainda não encontrou uma forma, prazerosa ou não, de reprodução homossexual. O zigoto se forma a partir do espermatozoide e do óvulo, a genética toda bonitinha, o orgulho do pai e os olhos da mãe. O feto é ínfimo, um pedacinho de quase nada. Só um pouco de cromossomos do pai e da mãe, umas proteínas, uns sais... O que aumenta sua massa, nos primeiros momentos, é a conhecida ‘manteiguinha de fazer neném’, a gordura que vem da bunda da mãe. Depois que desmama, ele cresce e fica sadio se nutrindo com o material comum do mundo, formado por partículas agrupadas. Todo mundo sabe disso. Com a alma, presumiu que deveria ser semelhante. Supôs que um pequeno conjunto de esquízons fosse formado no ovo inicial (o esquiza individual), fazendo o feto da alma nascer, atrelado ao feto do corpo, os dois dualisticamente a mesma coisa, como energia e matéria. A partir daí, esquízons auxiliares, radiantes no ar, seriam absorvidos (como o cálcio é, para ser utilizado nos dentes e ossos) para constituírem a alma desse indivíduo recém-formado. Tal detalhe seria importante, inclusive, para o estudo de psicopatologias, como a esquizofrenia. Kareca Giesta, cuja famosa oficina Zé Ateu da Babilônia revelou que  visitara, costumava dizer que um esquizofrênico é uma pessoa possuidora de uma disputa de poder interna, entre várias vozes (frenos) que pretendem comandá-lo e que causam nele uma confusão, uma aparente falta de coerência de pensamentos e ações, devido à instabilidade de controle da própria consciência. Essa ‘disputa’, à luz da esquizonologia, seria causada por uma deficiência genética no esquiza individual, que não teria se formado forte e coeso o suficiente para exercer o comando sobre os esquízons auxiliares, com os quais teve que se completar. Possibilidades mais ou menos absurdas, porém, afeitas à hipótese por ele apresentada.


PESSOAS SENSITIVAS


 

Todo mundo conhece um ímã, o lado da atração e o da repulsão. Sob a ótica esquizonista, certas pessoas poderiam funcionar tal como um polo, aglutinador ou dispersador, de partículas. E, como já deduzimos, os esquízons possuiriam cargas e produziriam campos, nos moldes de qualquer outra energia/matéria, como o magnetismo. Não seria somente pela sedução da poesia que dizem que um individuo carismático possui um certo magnetismo pessoal. Algo na composição espiritual física dele atrairia os esquízons benfazejos, tanto os componentes de corpos viventes quanto os suspensos no meio cósmico. Analogamente, alguns atrairiam os prejudiciais, e existiria repulsa para os dois lados também. Polos e campos energéticos. A partir do equacionamento dessas energias é que se determinariam, por exemplo, a tendência à sorte de uns, e ao azar, de outros. Pessoas mais sensíveis ou sensitivas chegam a detectar lugares ‘carregados’, ou, felizmente, ‘bons astrais’, quando classificam ambientes. A mesma dinâmica se aplicaria às ideias de carma bom ou ruim.




MUNDOS PARALELOS

trocas energéticas entre esferas

As histórias homéricas dos gregos, as crônicas fabulosas do Antigo Testamento, a mitologia nórdica, a cultura maia, todos os causos, desde que o homem começou a contá-los, encorparam a certeza de que essa nossa realidade visível não é a única, que outras esferas coexistem simultaneamente. O Reino dos Mortos, o Reino dos Céus, Asgard, a Integração... Planetas de galáxias distantes, Infernos, K-Pax. São muitas as recorrências. As narrativas são repletas de relatos de visões fantásticas ou de captações de sons do além. Revelam encontros com deuses em pessoa, o que só é menos plausível que a abertura do Mar Vermelho por Moisés (Nessa aí, parceiro, nem com todos os esquízons empenhados. Vamos acreditar que era uma maré baixa, que subiu quando os soldados do faraó quiseram passar, que já está muito bom). Como ia dizendo, o homem tem como certa a existência de mundo(s) paralelo(s). Diverge mais no quesito comunicação: a maioria entende que o contato com aquelas dimensões é franqueado, outros, que não há possibilidade de conversa (Deus teria criado o mundo e largado de lado, possivelmente entediado e desiludido). A comunicação entre mundos paralelos é uma das concessões pretendidas pela administração da malha esquizonal.
Outro campo de trabalho promissor para as partículas espirituais seria o do movimento de formação de ideias e sentimentos subjetivos gerais, como o que Jung chamou de inconsciente coletivo, que outros chamaram de ordem natural dos acontecimentos ou moral natural (inata). Toda a luta entre os desejos freudianos individuais e a moral laica, absorvida do meio em que vai inserido o sujeito, poderia ser auxiliada pela fisiologia da propagação dos esquízons. Eles perpassariam todos os tipos de corpos ou meios físicos.
Porém, mais prolífico ainda é o estado lívido do sonho. A esquizonologia proporia que o período do sono, presente em todos os animais, proporciona uma melhor equalização entre as energias espirituais. Nesses momentos desacordados, os outros campos energéticos do bicho permanecem trabalhando, mas com intensidade bem menor, o que permitiria uma passagem menos resistida dos esquízons por nossa alma, protegida por cascas menos densas. Isso é eletromagnetismo. ‘Quem nunca ficou puto quando alguém ligava uma batedeira no mesmo prédio e causava interferência na tevê, no exato momento em que o juiz deixava de marcar pênalti para seu time?’. Sustentava a suposição de que o sonho é o sistema natural evolutivamente vencedor no tocante ao equilíbrio do fluxo espiritual. Sua importância seria muito maior que a que reconhecemos, como ferramenta de pesquisa científica. Os esquízons poderiam explicar muita coisa, de seu funcionamento pode se depreender uma teoria geral. E não param por aí as aplicações do estudo.



SÃO CHICO XAVIER


um homem maravilhoso

Zé Ateu se declarava agnóstico, para não causar polêmica. Não tinha religião nem forma alguma de culto espiritual. Não obstante, e sem pôr em cheque a trajetória de tantos outros, admirava o amor à humanidade do brasileiro Chico Xavier, muito maior que o dos santos cristãos. Entendia que o médium viveu para melhorar o entendimento que as pessoas têm do mundo, para abrandar o sofrimento – objetivo totalmente conexo à sua teoria. Não projetou receitas para a vida após a morte, nem fez questão de doutrinar alguém, deixando livres os pensamentos e corações das pessoas. Sustentava que ninguém pode acusar o escritor de ter desejado outra coisa senão o bem geral, que era um homem que ninguém estaria preparado para ser.
Muitos relatos emocionados contaram que, ao chegarem às proximidades de Uberaba, município mineiro donde Chico jorrava sua luz, as pessoas que iam ao seu encontro se sensibilizavam, a dez, vinte quilômetros da casa dele, sentiam sua presença, e choravam, ou faziam confissões sofridas, ou entravam em uma espécie de êxtase. Zé Ateu afirmava que era impossível que todos estivessem simulando ou mentindo, porque não contamos com tantos bons artistas assim. Descontando as sensações sugestionadas, porque a pessoa que ia ao encontro já ia detendo noticias de outros anteriores, a teoria tende a perceber esse fato como a entrada no campo energético daquele indivíduo, de esquiza fortemente positivo. ´Assim como somos bons de bola ou pernas-de-pau, somos também diferenciados geneticamente em termos de capacidades espirituais’. E o ambiente nos influencia e ‘conforma’ demais também. Uns dispersariam mais cargas positivas (ou benfazejas), outros, negativas (prejudiciais), sem querer, porque essa positividade/negatividade seria sempre relativa também – a carga seria ruim se não se relacionasse bem com o esquiza de outro, e boa, se o contato fosse confortável. Ou repeleriam uma ou outra, ou, ainda, não teriam capacidade/resistência para absorver qualquer delas. Análogo ao que a doutrina espírita trata como diferentes estágios de evolução espiritual. Chico Xavier era um médium, o mesmo que um indivíduo com grande capacidade de captar e transmitir cargas benéficas de esquízons, talvez o maior já conhecido, o que não torna falsas as contribuições de todos os outros, possivelmente portadores de uma potência luminosa menor. Entretanto, a teoria apoiava também o serviço humanista de todos os oráculos, benzedeiros ou pais de santos bem intencionados. Qualquer homem possui e pode desenvolver tais faculdades. A rezadeira, por exemplo, funcionaria como um repelente espiritual, equilibrando a configuração energética do precisado, no âmbito quântico, e erguendo sua espinhela. O mesmo se aplicaria às orações em geral: não importa a crença, o texto ou a língua em que a ladainha é proferida, nem o merecimento do orador, o que vale é o envio de energia positiva para o querido objeto da graça divina. ‘Esquízon que dá em Chico dá em Francisco’.
  

VIESTE DO PÓ, AO PÓ RETORNARÁS

são mateus
Seguindo seu princípio do touch, ilustrado anteriormente, por que desprezaria ocorrências aparentemente reais, como as resultantes de processos de comunicação entre espíritos, telepatia ou telecinese? Nao via Uri Geller como um charlatão. Qual poderia ser o meio físico através do qual seus comandos energéticos chegavam até a superfície metálica, que se entortava? Poderia ser também um processo catalisador de outras energias cósmicas, como as micro-ondas, encetado por um impulso esquizonal. Suposições apenas, mas que mostram o potencial da teoria.
E Jesus, como sua passagem é vista à luz do movimento das partículas cósmicas? É necessário, inicialmente, sabermos de qual Jesus estamos falando. Nos relatos amputados e modificados cristãos, mas também nos apócrifos, o nazareno teria praticado curas e milagres e sugerido aos terrenos a conjunção com o Reino dos Céus. Infelizmente, não temos dados comprovados para estabelecer que tipo de atuação teve Jesus naquelas comunidades, mas Zé Ateu preferia a vertente que o colocava como um defensor da fé e da dignidade de seu povo. Os maiores rabinos judeus estavam vendidos, procuravam se enriquecer, sem incomodar os interesses de seus dominadores romanos. O povo estava carente de representação política e espiritual. Um líder, se quisesse ver seu povo livre daquela situação, teria que lutar contra esses dois inimigos, Roma e o Sinédrio (assembleia judia de anciãos da classe dominante, a suprema corte judia legislativa e judicial de Jerusalém, na Palestina). Entendia que fora exatamente isso o que ele quis fazer.
O que consta na história é que, muito mais tarde, oportunistamente, a Igreja foi criando uma nova história para a trajetória do homem notável, de acordo com os interesses romanos cristãos e, depois, de seus parceiros políticos, militares e comerciais, a cada época, ao longo de todo o atraso que causou à evolução das relações humanas. As palavras de Jesus, objetivamente lançadas contra a exploração do homem pelo homem, tanto no âmbito político-administrativo quanto no religioso, acabaram sendo conformadas para permitir que a desigualdade social, causada pelos abusos capitalistas e usurpadores de fé, possa existir sem maiores alterações violentas. Que o domínio injusto fosse e continuasse sendo aceito com resignação e esperança de redenção. As ideias, do Jesus bíblico que nos chegou, são posteriores ao tempo terrestre dele. Um judeu que pregava a democracia grega.



O JESUS DO KARECA

 
kareca em performance do deus tá vendo

Zé Ateu da Babilônia gostava mais o Jesus do Kareca Giesta. Em uma palestra recorrente, mais para esquete, ele costumava dar outra visão da passagem do Mestre. Dizia que Jesus dominava todo o conhecimento de seu tempo, pois viajara desde muito jovem para todos os cantos, para aprender as ciências, o pensamento e as artes. Isso incluía a manipulação de ervas medicinais, a homeopatia, a aplicação de massagens (como acupuntura) e unguentos... Munido dessas capacidades, ele teria realizado curas e ações que, em meio à ignorância geral vigente, pareciam mágicas, milagrosas. Entretanto, seu Jesus era também ativista social, revoltado contra a exploração, com a queixada na mão para espantar os vendilhões do Templo. Via-o como um líder, o homem que levaria o povo à libertação. Dizia também que Maria era descendente da linhagem real do rei Davi, e que, por isso, Jesus seria herdeiro legal do trono. E mais. A Igreja nos passou a imagem de um Jesus bem simples, filho de carpinteiro, sem muito conforto, que ajudava o pai no trabalho para sustentar os irmãos mais novos (que depois foram preteridos pelos glosadores, que não os quiseram mais como irmãos carnais). Kareca sugeria que, para os parâmetros da época, Jesus teria sido um playboy. Primeiro, porque foi bem educado, inclusive com ‘cursos’ de extensão no exterior, condição raríssima à época, reservada às cortes. Depois, porque tinha um burrinho, que equivaleria a um carro novo atual, tendo em vista que a grande massa caminhava nas pedras e na areia quente. Sabia ler e escrever em mais de uma língua, o que era para dezenas. Possuía profundo conhecimento das escrituras sagradas, argumentando com conteúdo diante de qualquer rabino respeitado. Sem falar na sua turma. Os apóstolos não seriam tão humildes assim. Judas era fiscal de impostos, profissão de bom prestígio até hoje. Tomé era médico, tinha formação ‘universitária’. Pedro foi pintado como um simples pescador. Na verdade, era o chefe dos pescadores. ‘O mais querido artista plástico valenciano’ o comparava a um diretor da FIESP atual, tendo em vista o lugar de destaque que a pesca ocupava na economia daqueles povos. Interpretações, sugestões...
Jesus acreditava no poder da palavra, em uma época em que não havia outro meio mais difundido para comunicação de massa. Aliada a sua índole, havia a sua capacidade. Nada obsta que o maior profeta cristão tenha realmente possuído o que o estudo de Zé Ateu chamou de esquiza radiante. Quem sabe o espírito com maior potencial de agregar bons esquízons e repelir maus? Suposições...



VIDA APÓS A MORTE


vida após a morte, de wagner roberto

A teoria se presta até para vislumbrar uma possibilidade de vida após a morte, extensiva a ateus e agnósticos. A hipótese da teoria consiste em um sistema de evolução espiritual, não só individual, mas, principalmente, coletiva e geral. Diferente, entretanto, do sustentado pelo kardecismo - as sucessivas reencarnações do mesmo espírito, visando a sua chegada final a um estágio mais elevado, que, enfim, dispensaria mais encarnações. Essa condição de manutenção do eu através da existência não deveria ser praxe, mas algo a se conquistar. Uma pessoa, que não desenvolvesse os esquízons que ostentava durante a passagem adequadamente, não dotaria seu esquiza de força gravitacional aglutinadora suficiente para evitar a dispersão. Em outras palavras, no espiritismo, o mesmo eu volta várias vezes, para se aprimorar. Isso seria mais um reflexo egocêntrico humano, uma resposta ao pavor de deixar de existir, seja lá como for essa existência. Vaidade humana personalíssima. Aos olhos esquizonológicos, ao morrer, o indivíduo perderia sua identidade. Os esquízons, assim como todo o material que compusera seu corpo físico, seriam reciclados e retornariam ao seu ciclo próprio de evolução, dentro da estrutura cósmica. Por isso não nos lembraríamos (os imperfeitos) das outras encarnações. Nada impederia, contudo, que os mais destacados humanistas, como Jesus ou Chico Xavier, em virtude de suas fortes e ímpares configurações energéticas, conseguissem evitar essa dispersão e mantivessem seus eus, merecidamente. A tese não é contra a redenção, nem a favor das injustiças. Quem sabe as melhores essências não conseguem manter sua existência?


CONSTRUIR UMA ESSÊNCIA


‘Tudo no universo se cria, cada coisa ou criatura, inclusive a importância de cada uma delas’. O que precisaríamos seria criar uma essência geral positiva para o homem, para que a humanidade evoluísse como um todo, desenvolvendo horizontes para ampliar sua importância e participação consciente. Talvez possamos estar aqui para construir personalidades. Porém, jamais bastariam um Einstein aqui, um Saramago ali, um Chico Buarque acolá. Os que atingem certo grau, possivelmente, ganhariam mais existência. Aqui, no globo, permaneceriam os bilhões de esquízons pouco evoluídos, aptos a constituírem outros seres pouco luminosos, sempre remisturados, em um repetitivo e longevo nivelamento por baixo. Os expoentes mostram os melhores caminhos, mas as massas ‘preferem’ (são assim forjadas) seguir as ‘facilidades’ oferecidas pela futilidade. Andamos, universalmente, em círculos.
Talvez fosse esse o objetivo, o motivo pelo qual nossa mão de obra estaria aqui disponibilizada: construir um ambiente mais humano, melhorando, assim, paulatina e coletivamente, a qualidade dos esquízons, para produzir personalidades (essências) dignas da atenção divina. Para pormos em prática, necessitaríamos da adesão e criatividade dos nerds, ou de outros grupos detentores de inteligência, formação e informação suficientes, desde que também prescindam de Deus para equacionar e utilizar fenômenos naturais e sociais.
  
Cerro da Coroa, primavera de 2000.
Walter Soares



tamborim e alegria no arrastão do jabaquara

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